Guinga

Casa de Villa

Lançado em 2007 pela Biscoito Fino (BF 679).

FAIXAS DO DISCO:

  1. Mar de Maracanã (Guinga/Edu Kneip)
  2. Porto de Araújo (Guinga/Paulo Cesar Pinheiro)
  3. Villalobiana (Guinga)
  4. Capital (Guinga/Simone Guimarães)
  5. Via-Crúcis (Guinga/Edu Kneip)
  6. Bigshot (Guinga)
  7. Maviosa (Guinga)
  8. Tudo Fora de Lugar (Guinga/Aldir Blanc)
  9. Jongo de Compadre (Guinga/Aldir Blanc/Simone Guimarães)
  10. Casa de Villa (Guinga/Mauro Aguiar)
  11. Contenda (Guinga/Thiago Amud)
  12. Comendador Albuquerque (Guinga)

 

¶PARA OUVIR (mp3)

 

OUTROS TEXTOS DO ENCARTE DO DISCO:

Ficha Técnica

Produtor Musical: Marcus Tardelli
Artista: Guinga
Músicos: Marcus Tardelli, Lula Galvão, Paulo Aragão, Jorge Helder, Paulo Sérgio Santos, Carlos Malta, Andréa Ernest Dias, Cristiano Alves, Jessé Sadoc, Jota Moraes, Eliezer, Philip Doyle, João Areias, Popô, Wellington, Erivelton, Bolão, Bernardo, Durval.
Mixado por: Gabriel Pinheiro
Estúdio de Masterização: Visom
Engenheiro de Masterização: Tornaghi
Engenheiro: Gabriel Pinheiro
Assistente: Fernando Prado

REALIZAÇÃO BISCOITO FINO

Direção geral - Kati Almeida Braga
Direção artística - Olivia Hime
Gerência de Produção - Joana Hime
Assistente de Produção - Isabel Zagury

 

  • Texto de Mario Marques publicado no site da Biscoito Fino

Canções e Cantor

Em seu primeiro disco pela Biscoito Fino, Guinga assume-se cantor e estréia como letrista.

Em 1991, Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, o Guinga, foi catapultado a fina flor da MPB. Ivan Lins, Vitor Martins e o saudoso produtor Paulinho Albuquerque (morto em 2006, de enfarto) decidiram montar a gravadora Velas apenas para lançar "Simples e absurdo", disco com canções represadas há mais de uma década, parcerias do violonista, então desconhecido, com Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro. O CD trazia muitos convidados, intérpretes que abraçaram a causa do supermúsico tímido e talentoso. Mas foi no álbum seguinte, "Delírio carioca" (1993), que Guinga pôs realmente seu boteco para funcionar: assumiu o microfone, deslizou a voz densa entre o breu e a impostação erudita e criou um clássico – é bem verdade que ainda será descoberto – e revalorizado em capítulos futuros da música brasileira. Pois "Casa de Villa" (que remete às residências do subúrbio e também a Villa-Lobos) é sucessor direto de "Delírio carioca". E o melhor trabalho de sua carreira.

O primeiro disco de Guinga pela gravadora Biscoito Fino é produzido por Marcus Tardelli. Violonista e arranjador, ex-integrante do grupo Maogani, em 2005 fez releituras de canções do artista, lançadas em "Unha e carne", sua estréia solo. Ganhou um amigo e a oportunidade de estar mais perto dele.

Aqui está o Guinga dividido entre dois opostos que se cruzaram em poucos momentos: canção e cantor. Década de 90 adentro e em parte dos anos 2000, ele era um compositor de canções, mas também um artista de rótulo instrumental, com pouca vontade de amplificar as rebuscadas e delirantes letras que lhe presenteavam. As melodias e harmonias saíam com a categoria de uma falta certeira de Roberto Dinamite, ídolo de seu eterno Vasco. Mas a voz...descansava em berço esplêndido, contida, escondida, à espera de um pedido insistente, como o de Djavan, que um dia fez um apelo num jornal: "Guinga, faça as letras e cante suas canções!".

Djavan foi atendido. Em "Casa de Villa", Guinga canta oito das 12 músicas e, num ato de bravura para quem renegava sua literatura vasta, estréia como letrista. São dele os versos de "Maviosa", que descreve imagens da Rodovia Washington Luiz, atravessando a suburbana Duque de Caxias ("O fogo da refinaria é Boitatá/o lixo de Gramacho/o luxo mora embaixo/macho e fêmea Urubu-Bumbá"), mas também pinça o imaginário de todos os bairros e municípios da periferia por que passou na vida.

Os violões são soberanos: tomam conta do corredor instrumental construído para o disco. Em álbuns como "Suíte Leopoldina" (1999), as cordas eram o feijão do arroz de Guinga. Em "Casa de Villa", despe-se dessa erudição. Ela é apresentada no esqueleto, sem maquiagem, próxima da criação, é palanque vazio para modulações deliciosas. Choros, valsas, sambas, peças quase clássicas, instrumentais que misturam tudo aparecem nos 50m29s com poucos adereços.

Como em "Mar de Maracanã" (com Edu Kneip), que, costurada por flautas e clarinetes e recortada em solo de guitarra jazzística de Lula Galvão, trata o bairro do maior estádio do mundo como uma ilha paradisíaca. "Via crucis", outra com Kneip, é dividida com a cantora mineira Paula Santoro e traz à luz logo uma comparação com "Passarinhadeira" (de "Delírio carioca"), levada aos limites interpretativos por Fátima Guedes. Termina aqui quase como uma ária.

É a exceção. A respiração que domina o disco é mesmo a de Guinga. É ele quem carrega as melodias para cima e para baixo, que ordena o ritmo, que comanda o boteco. É ele quem diz como deve cantar e de que forma deve soar. Muito por causa disso, parece se reapropriar de sua alma, isso transparece com uma sinceridade perturbadora.

Ao fechar as portas de sua "Casa da Villa", Guinga convida outra alma, a de Paulinho Albuquerque, que brilha na homenagem "Comendador Albuquerque". A valsa instrumental tristíssima que encerra o disco é uma espécie de tributo ao produtor que dedicou 15 anos de sua vida a contar ao mundo quem era Guinga. A luta de Albuquerque não foi em vão. Resta agora que o mundo saiba que, por cima das mais belas canções já escritas no Brasil, paira também uma bela voz. A voz de um grande artista.

 

  • Texto de Francis Hime publicado no site da Biscoito Fino (voltar)

Dias atrás, ouvi este novo disco de Guinga, que tanto me emocionou, e por isso mesmo deixei-o ali de lado - quietinho - por algum tempo, até me refazer um pouco...

Fico me lamentando por não encontrar palavras que digam um pouco do que sinto ao ouvir estas canções extraordinárias. Me dá até vontade de correr pro piano e compor uma nova canção.
Diga-se de passagem foi, aliás, o que fiz logo que ouvi “Mar de Maracanã”.

Por outro lado, como músico, sinto-me um privilegiado por poder acompanhar e me deliciar com a linguagem, com os caminhos inesperados da música de Guinga. Esta sua originalidade, estes dribles desconcertantes que ele realiza na arquitetura de suas canções, me fazem pensar em Garrincha (que não era vascaíno, como Guinga e eu somos) mas que tinha na imprevisibilidade talvez a sua característica mais marcante. É isso: o Guinga parece que vai para um lado, depois aponta para o outro, e depois para outro mais e mais e mais !!!

Quando comecei a escrever estas linhas pensava em fazer alguns comentários musicais específicos sobre este “Casa de Villa”, falar da beleza de canções como “Porto de Araújo”, “Villalobiana”, “Mar de Maracanã”, “Via-Crúcis”, todas elas, enfim - não dá pra esquecer nenhuma: dos arranjos primorosos (salve Lula, Malta, Jessé, Paulo Aragão, Paulo Sérgio e Tardelli ! ), dos músicos maravilhosos, do violão de Guinga - que é uma verdadeira orquestra, da brilhante produção de Tardelli (outro que também faz do seu violão, uma orquestra ), da voz emocionada de Guinga.

Mas, como escrevi linhas acima, continuo sem encontrar as palavras. De modo que acho que vou de novo correndo pro piano para fazer uma nova canção.

Obrigado, Guinga, o Brasil te agradece o presente. Ps. E que venha o próximo "biscoito” bem rapidinho.

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